Atualizado em 31/08/2026 às 17:00
Que tal convidar as crianças a descobrir de onde vêm as emoções? O que alimenta a raiva? Por que, em alguns momentos, estamos tranquilos e, de repente, pum!, algo acontece e nosso humor muda completamente?
É a partir dessas perguntas que esta sequência didática propõe uma viagem pelo universo dos sentimentos, tendo a literatura infantil como ponto de partida para conversar, ouvir, imaginar, ler, escrever e aprender.
No livro “Pedro Vira Porco-Espinho”, de Janaina Tokitaka, conhecemos Pedro, um menino comum que vive situações presentes no cotidiano de muitas crianças. Ele brinca, se diverte, segue suas rotinas e experimenta diferentes emoções. Mas, quando alguma coisa não acontece como ele esperava, Pedro vira porco-espinho.
A transformação do personagem é apresentada de maneira sensível, divertida e cheia de significado. O porco-espinho torna-se uma metáfora para aqueles momentos em que a irritação, a frustração ou a raiva parecem tomar conta de nós.
Aquilo que, muitas vezes, os adultos interpretam simplesmente como “birra” ou “manha” ganha, na narrativa, uma nova possibilidade de compreensão: a criança também está aprendendo a reconhecer, nomear e lidar com aquilo que sente.
Trabalhar essa história em sala de aula permite criar um espaço seguro para que as crianças falem sobre suas próprias experiências, reconheçam diferentes sentimentos e percebam que todas as emoções fazem parte da vida.
Mais do que ensinar a “não sentir raiva”, a proposta é ajudar a criança a compreender o que acontece dentro dela e encontrar maneiras mais adequadas de expressar aquilo que sente.
Literatura infantil e alfabetização: aprender com histórias como esta do Pedro Vira Porco-Espinho
A literatura infantil ocupa um lugar muito importante no processo de alfabetização porque aproxima a criança da linguagem escrita de maneira significativa, prazerosa e contextualizada.
Ao entrar em contato com uma boa história, a criança não está apenas aprendendo letras, palavras ou frases: ela está construindo sentidos, ampliando seu vocabulário, desenvolvendo a imaginação e percebendo diferentes formas de utilizar a linguagem.
Por isso, a literatura pode ser uma importante aliada do professor alfabetizador. Ler para as crianças, conversar sobre o texto, observar as ilustrações, antecipar acontecimentos, levantar hipóteses, recontar a história e registrar ideias são práticas que favorecem o desenvolvimento da oralidade, da compreensão leitora e da produção escrita.
Uma história como Pedro Vira Porco-Espinho oferece ainda outras possibilidades. A partir dela, é possível explorar palavras, personagens, acontecimentos, sequência temporal, características, sentimentos e situações vivenciadas pelos próprios alunos.
Assim, o trabalho com a alfabetização deixa de acontecer de maneira isolada e passa a estar relacionado a uma experiência literária que desperta curiosidade e envolvimento.
Outro aspecto importante é que a literatura infantil contribui para a formação do leitor. Quando a criança percebe que os livros podem ajudá-la a compreender o mundo, conhecer outras pessoas, imaginar diferentes situações e até refletir sobre aquilo que sente, ela começa a estabelecer uma relação afetiva com a leitura.
Nesse sentido, a literatura não precisa ser utilizada apenas como pretexto para ensinar determinado conteúdo.
A história deve ser valorizada como obra literária, permitindo que a criança desfrute da narrativa e, a partir dela, participe de experiências de aprendizagem planejadas pelo professor. Venha se aprofundar mais neste assunto: Literatura Infantil na Alfabetização: Como Transformar Histórias em Aprendizagem
Uma história para falar de sentimentos e aprender
Ao trabalhar esta sequência, o professor poderá aproveitar as situações vividas por Pedro para promover conversas sobre raiva, frustração, alegria, tristeza, medo, calma e outras emoções, respeitando a faixa etária e as experiências individuais das crianças.
A proposta é transformar a leitura em uma experiência de diálogo e descoberta. Depois de conhecer Pedro, os alunos poderão pensar: “Quando eu fico bravo, também viro um porco-espinho?”, “O que faz minhas pontinhas aparecerem?” e “O que me ajuda a voltar a ficar tranquilo?”
Essas perguntas favorecem a expressão oral e criam oportunidades para que as crianças ampliem o repertório de palavras relacionadas aos sentimentos.
Ao mesmo tempo, podem ser utilizadas como ponto de partida para atividades de leitura e escrita, produção de frases, identificação de palavras, registros coletivos, ilustrações e outras propostas adequadas ao nível de aprendizagem da turma.
Dessa forma, esta sequência didática une literatura, alfabetização e educação emocional, valorizando a criança como sujeito que sente, pensa, fala, imagina e aprende.
Mais do que ensinar sobre as emoções, a intenção é oferecer às crianças a oportunidade de perceber que sentir faz parte de ser humano e que compreender o que sentimos também é uma forma de aprender a conviver consigo mesmo e com os outros.
Sequência Didática: Pedro Vira Porco-Espinho na Educação Infantil
Faixa etária: 4 e 5 anos
Duração: 5 dias
Baseado no livro: Pedro Vira Porco-Espinho, de Janaina Tokitaka
Objetivos:
Desenvolver a expressão oral e emocional das crianças.
Trabalhar empatia e respeito ao outro.
Estimular a coordenação motora e a criatividade.
Ampliar o repertório literário e linguístico.
Dia 1 – Leitura e Primeiras Impressões
No primeiro dia da sequência didática, será realizada a apresentação do livro Pedro Vira Porco-Espinho para os alunos. Inicialmente, acontecerá uma roda de conversa para explorar o tema central da história: as emoções, especialmente a raiva.
Atividades:
Roda de conversa: Os alunos serão incentivados a compartilhar suas experiências pessoais, respondendo a perguntas como: “Vocês já sentiram raiva? Como o corpo reage quando ficamos bravos?”. Dessa forma, favorecerá uma nova troca de ideias sobre como as emoções se manifestam e como podemos lidar com elas no dia a dia.
Leitura dialogada do livro com exploração das ilustrações.
Discussão sobre emoções com cartões de sentimentos: raiva, medo, alegria, tristeza.
- Caso não tenho o livro em mão, deixo aqui uma sugestão do livro: Pedro Vira Porco-Espinho em vídeo.
Campos de Experiência – BNCC:
O eu, o outro e o nós
Escuta, fala, pensamento e imaginação
Corpo, gestos e movimentos
Recursos: Livro “Pedro Vira Porco-Espinho”, imagens de emoções (alegria, tristeza, raiva, medo).
Dia 2 – Reconhecendo Emoções e Compreendendo a História
No segundo dia da sequência didática, o foco será a compreensão e a reflexão sobre a história Pedro Vira Porco-Espinho. A aula terá início com uma conversa sobre os acontecimentos do livro, incentivando os alunos a recontar trechos da história e a refletir sobre as emoções do personagem.
Atividades:
Perguntas norteadoras: “Por que Pedro virou um porco-espinho?” e “Como ele voltou ao normal?” serão utilizadas para estimular a interpretação e a relação entre sentimentos e comportamento.
Dinâmica das expressões: As crianças serão convidadas a representar diferentes emoções por meio de expressões faciais e corporais. Assim, essa atividade ajudará na identificação e no reconhecimento das emoções, promovendo um aprendizado sensível, interativo e principalmente lúdico.
Registro por desenho: Para finalizar, os alunos irão registrar a história por meio do desenho livre, representando a parte que mais gostaram ou que mais chamou sua atenção. Essa atividade permitirá que expressem suas percepções de forma criativa, reforçando a compreensão do enredo e a conexão com as emoções do personagem.
Campos de Experiência – BNCC:
Corpo, gestos e movimentos
Traços, sons, cores e formas
O eu, o outro e o nós
Recursos: Cartolina, giz de cera, espelho para observar as expressões.
Dia 3 – Dramatização e Jogo Corporal do livro Pedro vira porco-espinho
No terceiro dia da sequência didática, as atividades serão voltadas para a dramatização e a expressão corporal, permitindo que os alunos explorem a história de Pedro Vira Porco-Espinho de maneira interativa e vivencial.
Em conformidade, deixamos aqui a sugestão Pedro vira porco-espinho – Varal de Histórias (Temos toda admiração por esse canal)
Atividades:
Dramatização da história: com fantoches, encenando os sentimentos de Pedro. Também, os alunos serão incentivados a utilizar gestos, expressões faciais e movimentos corporais para demonstrar as emoções do personagem.
Assim, favorecerá a internalização do enredo, além de promover a empatia e o desenvolvimento da comunicação corporal.
Jogo “Corpo-Espinho”: Em seguida, será realizado o jogo “Corpo-espinho”, no qual a professora dará comandos como “Pedro ficou bravo!”, e as crianças deverão encolher o corpo, simulando um porco-espinho se protegendo.
Quando a professora disser “Pedro ficou calmo”, os alunos deverão relaxar e demonstrar uma postura tranquila. Além de se divertirem, essa atividade ajudará a compreender as mudanças corporais que acompanham as emoções e a importância do autocontrole.
Conversas sobre formas de lidar com a raiva: técnicas de respiração, pedir ajuda, abraçar um bichinho, contar até dez… Os alunos serão convidados a compartilhar estratégias que utilizam quando sentem essa emoção ou conversar com um adulto de confiança.
Também, permitirá a construção coletiva de formas saudáveis de expressar e administrar os sentimentos.
Campos de Experiência – BNCC:
Corpo, gestos e movimentos
O eu, o outro e o nós
Escuta, fala, pensamento e imaginação
Recursos: Máscaras, fantoches, vídeo da história dramatizada.
Dia 4 – Arte com Criatividade: Porco-Espinho com Garfo!
Atividades de registro incluída:
Pinte o porco-espinho com tinta guache usando um garfo, criando texturas com as cerdas.
Confeccione seu porco-espinho 3D com massinha e palitos de dente ou papel colorido. Cada criança poderá criar seu próprio “Porco-Espinho” utilizando materiais como massinha, palitos, papelão e outros elementos disponíveis., explorando texturas, formas e cores.
Dessa forma, estimulará a coordenação motora, a imaginação e a percepção tátil, além de reforçar a conexão com a história.

Campos de Experiência – BNCC:
Traços, sons, cores e formas
Corpo, gestos e movimentos
O eu, o outro e o nós
Recursos: Atividade de registro do porco-espinho, tinta guache, garfo, massinha, papel reciclado, canetinhas, palitos.
Dia 5 – Sons e Letras: Aprendendo com a Letra P
Atividades de registro incluída:
Trabalhar a letra P, sílabas (PA – PE – PI – PO – PU) e completar palavras ilustradas (imagem 2).
Roda de conversa: “O que eu aprendi com o Pedro?”
Construção de um cartaz coletivo: será realizada uma pintura coletiva, na qual os alunos serão convidados a representar, por meio das cores e formas o tema “O que fazer quando estou com raiva?”
Esse momento permitirá a livre expressão das emoções, ajudando as crianças a identificar e externalizar seus sentimentos de forma artística.

Campos de Experiência – BNCC:
Escuta, fala, pensamento e imaginação
Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações
O eu, o outro e o nós
Recursos: Ficha com a letra P, cartolina, canetinhas, registros anteriores.
Literatura infantil e BNCC
A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) valoriza a participação das crianças em práticas de linguagem e destaca a importância da literatura no processo de formação do leitor.
No Ensino Fundamental, o componente Língua Portuguesa está organizado em práticas de linguagem que envolvem leitura/escuta, produção de textos, oralidade e análise linguística/semiótica.
A literatura aparece, portanto, integrada às práticas de linguagem. Para consultar a BNCC completa e outras possibilidades de aplicação pedagógica, vale conferir o conteúdo disponível no blog: Base Nacional Comum Curricular (BNCC) na prática escolar (disponível para download gratuito) ou se preferir navegue no site oficial.
Dica para finalizar com chave de ouro a Sequência didática Pedro vira porco-espinho:
Encerramento e Socialização: Produção Artística e Exposição das atividades.
Valorize as produções de cada criança, com uma exposição das produções da semana na sala ou no mural da escola. Nesta oportunidade, os alunos poderão compartilhar o significado de suas criações com os colegas, outros professores e suas próprias famílias, promovendo a troca de experiências e reflexões sobre as emoções e suas formas de manifestação.
Conclusão
Ao chegar ao final desta sequência didática, esperamos que as crianças tenham percebido que, assim como Pedro, todos nós experimentamos diferentes emoções ao longo do dia.
Há momentos em que estamos felizes, tranquilos e animados, mas também existem situações que despertam raiva, tristeza, medo, frustração ou impaciência. Sentir todas essas emoções faz parte da vida e não torna ninguém menos especial.
É importante lembrar, porém, que trabalhar as emoções na escola não significa ensinar a criança a esconder ou controlar aquilo que sente. O objetivo é ajudá-la a reconhecer, nomear, compreender e expressar suas emoções de maneira cada vez mais consciente, aprendendo também a respeitar os sentimentos dos colegas.
Nesse percurso, o professor exerce um papel fundamental como mediador. Ao acolher as falas das crianças, ouvir suas experiências sem julgamentos e criar situações de diálogo, contribui para a construção de um ambiente em que todos possam se sentir seguros para aprender.
Que, ao final desta proposta, cada criança possa compreender que talvez, em alguns momentos, também vire um pequeno “porco-espinho”. E tudo bem. O mais importante é descobrir o que faz nossas pontinhas aparecerem, como podemos cuidar delas e como podemos voltar a nos sentir bem.
Assim, a literatura cumpre uma de suas funções mais bonitas na infância: ajudar a criança a compreender melhor as histórias dos livros, mas também a compreender um pouco mais a sua própria história.
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Um forte abraço,
Leticia e Eliene (Conto e Movimento).

Leticia Borges e Eliene Andrade são duas professoras apaixonadas pela educação, pela criação de materiais didáticos e pela construção de uma escola mais criativa, inclusiva e verdadeiramente significativa. Unidas pelo desejo de transformar práticas pedagógicas, partilham experiências, reflexões e recursos que inspiram educadores. Para além da sala de aula, também se aventuram no universo da literatura infantil, sendo autoras de obras como Bruxolina Narizé e Vicente e o Resgate, que encantam crianças e promovem a imaginação e o gosto pela leitura.


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