As palavras fazem parte da construção das relações. Elas podem acolher, incentivar, aproximar e ajudar uma criança a se sentir pertencente ao grupo. Mas também podem machucar, constranger, excluir e deixar marcas que nem sempre são percebidas pelos adultos.
É a partir dessa reflexão que nasce o projeto Bullying na escola: “Palavras deixam marcas”, uma proposta pedagógica para abordar o bullying de maneira adequada à infância, sem transformar o assunto em uma sequência de sermões ou explicações distantes da realidade das crianças.
Na escola, ensinar a ler, escrever, contar e pesquisar é fundamental. Mas ensinar a conviver também faz parte da formação humana.
A Base Nacional Comum Curricular compreende a Educação Básica sob a perspectiva da formação integral e valoriza competências relacionadas à empatia, ao diálogo, à cooperação, ao respeito, à responsabilidade e à cidadania.
Por isso, este projeto combina conversa, literatura, brincadeiras, jogos, desenhos, leitura, escrita, matemática, artes e atividades coletivas.
A intenção não é apenas explicar o que não devemos fazer. É permitir que as crianças experimentem, na prática, outras maneiras de falar, brincar, discordar, pedir desculpas, ajudar e acolher.
O que é bullying?
Nem toda discussão entre crianças, desentendimento ou comportamento inadequado deve ser automaticamente chamado de bullying. A legislação brasileira caracteriza a intimidação sistemática a partir de elementos como intencionalidade, repetição e ações de intimidação, humilhação, discriminação ou violência física e psicológica.
Essa distinção é importante no trabalho pedagógico. Uma criança que se desentende uma vez com um colega precisa de intervenção e orientação, mas isso não significa, necessariamente, que exista uma situação sistemática de intimidação.
Por outro lado, apelidos ofensivos recorrentes, exclusão deliberada, ameaças, humilhações constantes ou agressões repetidas não devem ser minimizados como simples brincadeiras.
Como explicar para as crianças?
Na Educação Infantil e nos primeiros anos do Ensino Fundamental, o trabalho pode começar por uma ideia simples: “Existem palavras e atitudes que fazem bem e existem palavras e atitudes que machucam.”
A partir daí, o professor apresenta situações concretas e pergunta como cada personagem pode estar se sentindo, o que poderia ser feito de outra maneira e como pedir ajuda quando algo não está bem.
Objetivo geral
Promover uma cultura de respeito, empatia, acolhimento e convivência saudável no ambiente escolar, ajudando as crianças a reconhecer comportamentos que machucam o outro e a desenvolver maneiras mais respeitosas de se comunicar, participar e resolver conflitos.
Objetivos específicos
- Reconhecer atitudes de respeito e desrespeito.
- Compreender que palavras produzem sentimentos e consequências.
- Ampliar o vocabulário relacionado às emoções, à amizade e à convivência.
- Desenvolver empatia diante das experiências dos colegas.
- Aprender estratégias de diálogo e resolução de conflitos.
- Valorizar as diferenças individuais e a inclusão.
- Compreender a importância de procurar um adulto diante de situações que causem medo, sofrimento ou constrangimento.
- Fortalecer vínculos de amizade, cooperação e solidariedade.
- Desenvolver oralidade, leitura, escrita, consciência fonológica, raciocínio lógico e expressão artística a partir do tema.
- Perceber que pedir desculpas precisa estar acompanhado de mudança de atitude.
O projeto e a BNCC
A proposta dialoga com as Competências Gerais da Educação Básica, especialmente aquelas relacionadas ao autoconhecimento, à empatia, ao diálogo, à cooperação, à responsabilidade e à cidadania.
Na Educação Infantil, articula-se aos direitos de aprendizagem e desenvolvimento — conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se — e, de maneira especial, aos campos de experiências “O eu, o outro e o nós”, “Escuta, fala, pensamento e imaginação”, “Traços, sons, cores e formas”, “Corpo, gestos e movimentos” e “Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações”.
Nos Anos Iniciais, o projeto possibilita integração com Língua Portuguesa, Matemática, Arte e propostas de formação humana, mantendo objetivos de aprendizagem próprios de cada área.
A temática da convivência funciona como contexto significativo para ler, escrever, interpretar, contar, comparar, argumentar e produzir.
Para consultar a BNCC completa e outras possibilidades de aplicação pedagógica, vale conferir o conteúdo disponível no blog: Base Nacional Comum Curricular (BNCC) na prática escolar (disponível para download gratuito) ou se preferir navegue no site oficial.
Como desenvolver o projeto
O material pode ser utilizado durante uma semana, uma quinzena ou distribuído ao longo de um período maior. O mais importante é que as atividades não apareçam como folhas desconectadas. O percurso sugerido é: PERCEBER → CONVERSAR → COMPREENDER → PRATICAR → REGISTRAR → COMPARTILHAR.
1. Cards para iniciar as conversas
Os cards temáticos podem abrir rodas de conversa sobre palavras que machucam, atitudes de respeito, sentimentos, amizade, acolhimento e maneiras de agir diante de uma situação desagradável.
O professor pode mostrar um card por vez e perguntar: “O que está acontecendo?”, “Como essa criança pode estar se sentindo?”, “Essa atitude ajuda ou machuca?” e “O que poderia ser feito de outra maneira?”.
Evite pedir que os estudantes exponham nomes de colegas ou situações delicadas diante do grupo.
2. Desafios coletivos
Os cards de desafios transformam os conceitos em ações. A turma pode receber desafios como elogiar sinceramente um colega, ajudar alguém, convidar para brincar quem estiver sozinho, ouvir sem interromper, utilizar palavras gentis, acolher diferenças e demonstrar cooperação.
Depois, a experiência deve ser retomada em conversa, permitindo que as crianças percebam como pequenas atitudes interferem no clima da turma.
3. Bingo “Palavras deixam marcas”
O bingo trabalha, de forma lúdica, palavras relacionadas ao projeto. As cartelas podem reunir conceitos como RESPEITO, AMIZADE, EMPATIA, GENTILEZA, AJUDA, ACOLHIMENTO, CORAGEM, UNIÃO, DIÁLOGO, CUIDADO, INCLUSÃO, CARINHO, ESCUTA, PAZ, APOIO, COOPERAÇÃO e SOLIDARIEDADE.
Antes de marcar a palavra sorteada, o professor pode pedir um exemplo de como ela aparece na vida escolar. Assim, o jogo também desenvolve oralidade, compreensão e ampliação de vocabulário.
Atividades para alfabetização e Anos Iniciais
Atividade 1 — Leitura, interpretação e sentimentos
A criança lê ou acompanha a leitura de uma situação relacionada à convivência, identifica comportamentos e reflete sobre os sentimentos envolvidos. Perguntas como “Por que isso aconteceu?”, “Como o personagem se sentiu?” e “O que poderia mudar essa situação?” ampliam a compreensão.
Atividade 2 — Palavras que deixam marcas
A proposta direciona a atenção para o poder das palavras. As crianças identificam expressões que acolhem e outras que podem ferir, ampliando o vocabulário e refletindo sobre a comunicação cotidiana.
Atividade 3 — Reflexão e registro
A criança registra suas próprias ideias sobre respeito, amizade, ajuda, exclusão e resolução de conflitos. As respostas podem ser compartilhadas sem obrigar ninguém a expor experiências pessoais.
Atividade 4 — Produção e expressão
O estudante passa da identificação para a produção, elaborando frases, mensagens ou pequenos registros sobre atitudes de respeito. A quantidade de escrita pode ser adaptada aos diferentes níveis de alfabetização.
Atividade 5 — Consolidando as aprendizagens
A atividade final retoma conceitos desenvolvidos durante o percurso e pode servir como instrumento de observação pedagógica, permitindo comparar as ideias iniciais da turma com aquilo que consegue explicar ao final.
Atividades para Educação Infantil
Na Educação Infantil, as propostas utilizam comandos curtos, imagens grandes e ações simples. O objetivo é favorecer a compreensão por meio da observação, da conversa, da pintura, da contagem e da experimentação, respeitando as características da faixa etária.
1. Atitudes que fazem bem na escola
A criança observa cenas de convivência e pinta aquelas que representam atitudes positivas, como abraçar, ajudar e acolher. Em contraste, aparecem situações de tristeza ou zombaria. Depois da atividade, o professor conversa sobre as escolhas realizadas.
2. Palavras gentis
Em corações, aparecem palavras como OBRIGADO, AMIGO, DESCULPA e POR FAVOR, juntamente com palavras que não representam uma comunicação gentil. A criança identifica e pinta as palavras positivas, enquanto o professor conversa sobre quando e por que utilizá-las.
3. Compartilhar também é cuidar
Com apoio de desenhos de materiais e brinquedos do cotidiano escolar, a criança identifica elementos que podem ser compartilhados e conversa sobre esperar a vez, pedir emprestado, devolver e cuidar do que pertence ao grupo.
Matemática na Educação Infantil
O projeto também explora conhecimentos matemáticos de forma integrada. Em uma das matrizes, as crianças contam elementos do cotidiano escolar e identificam o numeral correspondente.
Em outra proposta, recebem um número e pintam exatamente a quantidade indicada. Também há situações em que precisam contar conjuntos e registrar o resultado no quadradinho.
Essas experiências trabalham contagem oral, correspondência um a um, relação numeral-quantidade, reconhecimento e registro de números, atenção e percepção visual. O uso de lápis, mochilas, borrachas, estojos, cola, réguas e outros objetos familiares torna a aprendizagem mais concreta.
Linguagem: letra inicial e final das palavras
A mesma matriz amplia a exploração para a linguagem escrita. Com apoio de imagens, a criança identifica a letra inicial e a letra final de palavras conhecidas, como LÁPIS, MOCHILA, MAÇÃ, COLA, LIVRO, TESOURA, GIZ e RÉGUA.
A proposta favorece percepção sonora, atenção às palavras e aproximação entre fala e escrita, sem transformar a atividade em uma cobrança formal de alfabetização precoce.
Números e registro
Além de contar e relacionar quantidades, as crianças podem realizar o traçado e a escrita dos numerais de 1 a 5. O professor pode ampliar oralmente a sequência, propor contagens com objetos concretos da sala e criar pequenas situações-problema relacionadas à cooperação, como distribuir materiais igualmente entre os colegas.
Arte e expressão das emoções
A Arte cria espaço para representar sentimentos que nem sempre são facilmente verbalizados. Uma proposta é solicitar: “Desenhe uma atitude que deixa o coração feliz”.
Outra possibilidade é produzir um painel coletivo com palavras e desenhos que representem atitudes que fazem bem à turma.
O papel do professor diante de situações reais
Projetos preventivos são importantes, mas não substituem a intervenção quando existe uma situação concreta.
Quando uma criança relata humilhação, agressão, exclusão recorrente ou medo, o adulto deve escutar com atenção, evitar minimizar a experiência, observar o contexto e seguir os procedimentos institucionais de registro, acompanhamento e comunicação.
Também é importante distinguir conflitos pontuais de situações sistemáticas de intimidação.
Família e escola
A participação das famílias amplia o alcance do projeto. Uma possibilidade é enviar para casa a pergunta: “Que palavras fazem bem à nossa família?”.
A criança conversa com seus responsáveis e retorna com uma palavra para compor um painel coletivo. A proposta envolve a família sem transformar o projeto em uma comunicação excessivamente teórica.
Avaliação
A avaliação deve ser processual e baseada principalmente na observação.
O professor pode perceber se as crianças reconhecem situações de desrespeito, nomeiam sentimentos, propõem maneiras mais respeitosas de resolver conflitos, procuram ajuda quando necessário, acolhem colegas e utilizam novos termos relacionados à amizade, respeito e empatia.
Também podem ser considerados desenhos, registros escritos, participação oral, jogos e produções coletivas.
Dúvidas comuns
É cedo para falar sobre bullying na Educação Infantil?
Não é cedo para ensinar respeito, empatia, limites e convivência. Para os pequenos, porém, o foco deve estar nas relações, sentimentos, histórias, imagens e situações concretas.
Toda briga entre crianças é bullying?
Não. Conflitos pontuais também precisam de mediação, mas a intimidação sistemática envolve características como repetição e intencionalidade. É importante analisar cada situação com cuidado.
O projeto pode trabalhar Matemática e alfabetização?
Sim. O tema pode funcionar como contexto para diferentes aprendizagens. Neste material, há contagem, numeral e quantidade, registro de números, letra inicial e final, leitura, escrita e oralidade.
As atividades impressas são suficientes?
Não. Elas são recursos pedagógicos. O maior valor do projeto está na mediação do professor, nas conversas, nas intervenções cotidianas e nas experiências coletivas.
Como envolver a família?
Com propostas simples e participativas, como conversas em casa, palavras gentis escolhidas pela família, pequenos desafios e produções conjuntas.
Conclusão
“Palavras deixam marcas: respeito hoje, um futuro melhor sempre” parte de uma ideia simples e poderosa: aquilo que dizemos e fazemos interfere na vida de quem está ao nosso lado.
Um projeto sobre bullying não precisa ser construído em torno do medo. Ele pode nascer da amizade, da literatura, das brincadeiras, dos jogos, da Arte, da Matemática, da leitura, da escrita, da escuta e das pequenas escolhas que acontecem todos os dias dentro da escola.
Quando uma criança aprende a perguntar “posso brincar com você?”, percebe que alguém ficou triste, pede desculpas, procura ajuda ou decide não rir da humilhação de um colega, existe ali uma aprendizagem que ultrapassa os limites de uma atividade impressa.
Se palavras deixam marcas, podemos ensinar nossas crianças a deixar marcas de respeito, cuidado, amizade e gentileza.
Referências recomendadas
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Ministério da Educação.
BRASIL. Lei nº 13.185/2015. Institui o Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying).
BRASIL. Lei nº 14.811/2024. Medidas de proteção à criança e ao adolescente contra a violência nos estabelecimentos educacionais.
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Eliene e Leticia – Conto e movimento!
Perguntas frequentes sobre bullying na escola
Qual é o principal objetivo de um projeto sobre bullying?
Construir conhecimentos e atitudes que favoreçam relações baseadas em respeito, empatia, diálogo, cooperação e valorização das diferenças.
Quais atividades podem ser realizadas com crianças pequenas?
Rodas de conversa, histórias, desenhos, identificação de emoções, brincadeiras cooperativas, dramatizações, atividades de pintura, contagem, jogos e desafios coletivos.
Como trabalhar o tema de acordo com a BNCC?
O tema pode ser articulado aos direitos de aprendizagem, aos campos de experiências da Educação Infantil e às Competências Gerais da Educação Básica relacionadas à empatia, diálogo, cooperação, responsabilidade e cidadania.
O que fazer quando uma criança relata uma situação?
Escutar com atenção, evitar minimizar o relato, compreender o contexto e seguir os procedimentos da instituição para registro, acompanhamento, comunicação e intervenção.
Como trabalhar o respeito sem assustar as crianças?
Partindo de experiências próximas da infância: amizade, palavras gentis, sentimentos, ajuda, inclusão, brincadeiras e formas respeitosas de resolver conflitos.

Leticia Borges e Eliene Andrade são duas professoras apaixonadas pela educação, pela criação de materiais didáticos e pela construção de uma escola mais criativa, inclusiva e verdadeiramente significativa. Unidas pelo desejo de transformar práticas pedagógicas, partilham experiências, reflexões e recursos que inspiram educadores. Para além da sala de aula, também se aventuram no universo da literatura infantil, sendo autoras de obras como Bruxolina Narizé e Vicente e o Resgate, que encantam crianças e promovem a imaginação e o gosto pela leitura.















